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10.2.04

Silêncio

O novo cheira mal: deteriora-se. Do passado não tenho mais o que revolver. O sono não me serve mais; a comida me cai como num abismo. Meus desejos nascem e morrem na mesma velocidade dos fogos de artifício. Oscilo entre serenidade e aflição. Estou o tempo todo a olhar em volta, como numa festa, à espera de um não-sei-o-quê.

Vontade louca de agir, mas que fique pra depois. Daqui a pouco fecho os olhos e adormeço. Porque adoro o silêncio. Mas não por muito tempo – começo a ouvir meu coração bombear, voluntarioso que só, cheio de si.

Dia desses quis ser a garotinha na rua que berrou “tchau” inúmeras vezes (estampido que dispara uma sirene estridente e incessante), por nada, porque quis berrar, e calhou que “tchau” era a palavra do momento.

28.1.04

Início do fim?

“‘Você ainda me ama?’
Intuição? Mas ela parecia tranqüila, olhando-me de frente, estudando o meu rosto.
‘Mais do que antes. Cada dia que passa eu gosto mais de você.’
‘Gosta?’
‘Amo.’
Senti, ou tive a impressão, talvez falsa, de que minha voz estava pouco convincente.
‘Amo, amo, amo.’
‘Me dá um beijo.’
Beijei-a de leve, no rosto.
‘Um beijo de verdade.’
A boca dela procurou a minha com sofreguidão.”


22.1.04

À noite ele atrapalha o meu sono; é de propósito, eu sei. Mas estou leve como uma pluma, sem cansaço, sem dor – tão leve que não dá mesmo pra dormir. Ainda assim insisto em dormir e pra isso, acredite, penso nele com toda a força. Ele é matéria pura e viva, disposta da maneira que eu quiser. Depois, simulando o início de um sonho, penso num monte de nomes, lugares e situações estranhas. São todos parte de um mundo imaginário que eu não consigo reter na memória. Desperto desse sono falso, acendo a luz, e aí está ele me encarando com perversa frieza. Meu contra-ataque é doce, como se ignorasse tamanha insensibilidade. Torno a apagar a luz e, pra dormir, finjo que ele não está ali, e penso num monte de nomes, lugares e situações estranhas.

16.1.04

A certain sadness
(Lyra/Court)

Look out the window at that rainstorm
I've let the wind blow up a brainstorm
And now I'm wondering whether weather like this gets you too

It may go on like this for hours
Too late in fall for April showers
So I will court you
Got a thought or two I need to share with you

here goes...


5.1.04

Dentre as repetitivas mensagens que circulam nesta época do ano, essa é uma que vale a pena reler. Porque o meu ano novo também começa aos poucos:

Receita de ano novo
Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

2.1.04

Onde foi que nós paramos mesmo? Ah, sim, eu lhe falava sobre uma forma de ausência, dessas que não doem nem aliviam, não sufocam nem arejam. Acontece que o espaço que me ocupa é imenso, assim não me sobram muitos meios para descrevê-la. Já já começo a me perder em palavras avulsas pois não encontro sentido que lhes amarrem. Sim, eu sempre fui econômica ao expressar as minhas emoções mais intricadas e violentas, mas, agora, até um ponto me parece extrapolar todo o significado desta nota. Pois que estou aqui disposta a dedicar um tempinho sobre esta folha de papel, e todas as coisas que antes me comoveram me parecem tão distantes que não há como imprimir-lhes alguma graça. Você? Está em algum lugar diluindo-se nesse vão, assim como eu e tudo o que me faz parecer viva. Ah, feliz ano novo.

12.12.03

Platônica

Não costumo me arrepender do que fiz ou deixei de fazer. Minhas ações tiveram o peso e a qualidade que pude lhes dar no momento, penso. Em tempos de balanço, porém, surge pelo menos uma dúvida do tipo e se eu tivesse tentado?

Ainda me lembro dos sonhos e da exaltação que me preenchiam dias e noites enquanto o contato não era possível. E do pavor que me causavam seus gestos que, embora polidos, me pareciam sempre ameaçadores.

Um único abraço – daqueles em que se sente o pulso em cada milímetro de pele – e um esbarrar hesitante de rostos foram o que marcaram a nossa despedida.

Na última vez que o vi, tinha as mãos enfiadas nos bolsos e caminhava (ainda) solitário entre a multidão. Nessa hora, meus sapatos pregaram-se ao chão e eu não pude respirar. Nem piscar. Não podia ignorar o instante em que porventura ele passaria os olhos por mim – me reconheceria assim de relance?

A covardia nos leva a cometer esses vacilos de dois ou três segundos. Na verdade, são esses que destroem todas as minhas certezas: e se?

7.12.03

Lembranças desbotadas eram a sua companhia naquele fim de tarde de domingo sem sol. De tão apertada estava a garganta, que a cerveja lhe desceu como cachaça. Na rua, em frente ao boteco, poucos passantes. Recostado na cadeira, acendeu o primeiro cigarro para selar o sossego de bermuda e chinelo. Eu, que também passava por ali, pernas a decidirem rumo, quis parar, me sentar e pedir mais um copo.

10.11.03

Perdi um anel e uma pulseira naquela noite. Nada que fosse valioso ou insubstituível. Mas agora que dei por falta deles, não paro de pensar no chão imundo e escorregadio onde provavelmente deixei-os cair. Meu olhar, perdido em luzes que só iluminavam vultos, não ousaria pousar sobre aquele chão escuro e buscar o que quer que fosse. De nítido só havia a sua ausência, o vazio e o fosso entre nós.

3.11.03

Este é pra você

*lembra?*

Futuros Amantes
(Chico Buarque)

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

19.10.03

Tempo

> Reluto até agora em adiantar o relógio.

> A volta do sol indica que algo está errado. Comigo, quero dizer. Ainda não estou pronta para tanta claridade.

> Sem disposição para me derreter em memórias ou para me inflar de esperanças.

> E você?

11.10.03

Gritos

Acordei aos poucos, sem pressa de me levantar. Nenhum pensamento muito forte, talvez algumas lembranças da última semana. Gratas lembranças, por serem nada além disto. Em meio ao som dos carros ouvi gritos. Distantes, por certo, mas de tão insistentes me prenderam a atenção. Me convenci de que não eram de pirraça, eram de dor mesmo, mas não pude identificar se eram de uma criança ou de uma velha, se vinham de algum prédio ou da rua. Os gritos continuavam, secos, desesperados. Podiam também ser de uma louca. Fui até a janela. Dia escuro, gente com guarda-chuva esperando para atravessar a rua, ônibus preguiçosos, carrinhos de feira. E os gritos, solitários, agonizantes.

6.10.03

A bebida subindo rápido pelo canudo, a sensação de que algumas partes do corpo sobravam, e a abordagem: suave, cálida, incessante. Parei de resistir e decidi jogar tudo pro alto. Tantas cores e luzes e texturas novas. Você surgiu depois, bem depois, entre um feixe de luz e outro. Quando eu já não fazia outra coisa a não ser querer.

5.10.03

Lindo.

30.9.03

Chuva, finalmente. Ameaçou a tarde toda. O vendedor da farmácia, engraçadinho:
- Veio com tudo, até com brilho e barulho.
Pra dar uma boa lavada n’alma.

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